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O Climáximo na Cúpula dos Povos em Belém rumo à COP30 e não contra a COP30

Belém do Pará, Brasil, Novembro de 2025

Há dois anos, o presidente Lula anunciou perante todo o mundo que a 30ª edição da COP, a conferência das Nações Unidas para a crise climática, seria realizada na capital da Amazónia: Belém do Pará, no Brasil.

Desde aí que se iniciaram os processos de preparação do movimento social internacional, liderado pelo movimento brasileiro, para a Cúpula dos Povos, a conferência alternativa à COP. No movimento por justiça climática, existe uma tradição de organizar os altersummits, contra-cumbres, ou espaços paralelos alternativos durante a COP. Estes espaços serviriam para recusar e denunciar o processo injusto e negacionista da COP, criando e fortalecendo o poder popular necessário para realizarmos a nossa própria agenda: travar o colapso climático, deixando os combustíveis fośseis debaixo do chão. Esta tradição foi interrompida quando, em 2022, a COP sai dos países Ocidentais “democráticos” e disfarçadamente negacionistas climáticos (como o Reino Unido, onde se deu a COP26 em 2021) e vai para os países autoritários e abertamente negacionistas (COP27 nos Emirados Árabes Unidos, COP28 no Egito, COP29 no Azerbaijão).

Nos debates que construíram a Cúpula, um elefante estava na sala: era certo e sabido que o Lula tinha planos de avançar com novas explorações de petróleo. Ao mesmo tempo, no movimento social brasileiro, traumatizado pelos anos da presidência de Bolsonaro, eram poucos os que se atreviam a tecer críticas ao governo progressista e de esquerda de Lula.

Em Agosto, foi lançada a convocatória para a Cúpula dos Povos, escrita em conjunto por dezenas de organizações brasileiras. O título foi também oficialmente lançado, com uma particularidade que resume a vitória da posição governista sob o debate exposto acima: Cúpula dos Povos rumo à COP30, e não contra a CO30. No panorama interncional e brasileiro, continuava o hype acerca de uma COP na capital da Amazónia, Belém.

Apesar do longo tempo de preparação, dois anos, as dificuldades logísticas foram tremendas. Não havia camas para receber os estimados inicialmente 25 mil participantes da Cúpula dos Povos. De acordo com o que vários companheiros falaram, este não é um acaso: o governo Lula, ao impulsionar a onda do “progressismo”, acaba por cooptar várias lideranças sociais para o governo, esvaziando o movimento. O resultado é uma asfixia dos movimentos sociais livres e independentes.

Com a absorção de vários movimento para dentro da cimeira em si e a transformação a Cúpula dos Povos num anexo à cimeira, os movimentos sociais começaram a organizar encontros paralelos que iriam tomar lugar em Belém durante o início de Novembro: o II Encontro Ecossocialista Latino-Americano e do Caribe, o encontro da Carta da Terra, as atividades na Embaixada dos Povos, os diversos encontros de mulheres, indígenas e quilombolas; e, por fim, a Cúpula dos Povos que se realizou de 12 a 15 de Novembro.

Poucas semanas antes, o governo Lula anuncia a autoriazação para a exploração de novos poços de petróleo no Amazonas, revelando uma enorme contradição entre o progressismo e as ações concretas para travar a crise climática.

Nos Encontros Ecossocialistas, e em geral por Belém, escutava-se de vários lados o incómodo em ser desafiante criticar o governo Lula sem ser marginalizado. Durante a sessão de abertura do Encontro Ecossocialista, a liderança indígena do Baixo-Tapajós Auricélia Arapiun relatou ter sofrido ameaças por mensagens no WhatsApp minutos depois de, durante a sua intervenção, ter criticado abertamente o governo Lula devido ao novo mega-projecto hidro elétrico no território indígena do Baixo-Tapajós. (Toda a nossa solidariedade com a companheira Auricélia, que luta com coragem todos os dias para defender o seu território e o seu povo.)

O dia anterior ao início da Cúpula foi marcado pela Marcha de Saúde e Clima em que estivémos presentes quando, no final, um grupo liderado por indígenas do Baixo-Tapajós e jovens estudantes do coletivo Juntos invadiram a Zona Azul (ou seja, a zona onde só entra quem é credenciado e onde acontecem as negociações) para denunciar a palhaçada que é a COP e colocar na agenda do dia a recusa a mega-projectos, nomeadamente os novos poços de petróleo.

No dia 12 de Novembro, antes da cerimónia de abertura da Cúpula, assistimos ao lançamento do novo Movimento Internacional de Pessoas Afetadas por Barragens, Crimes Ambientais e a Crise Climática. O lançamento deste novo movimento foi fruto de um encontro internacional de vários dias interno ao Movimento de Afetados por Barragens (a nível do Brasil, da América Latina, e com várias delegações da África, Europa e Oceania) e que contou com centenas de pessoas. No painel de lançamento do Movimento, interviram dois ministros do governo Lula.

A Cúpula dos Povos teve a sua abetura ao final da tarde de 12 de Novembro, com mais intervenções de ministros do governo Lula – o mesmo que tinha anunciado novos poços de petróleo há poucas semanas. A Cúpula contou com dezenas de sessões paralelas, demonstrações culturais, uma feira popular que demonstrava o trabalho dos camponeses na reforma agrária, e inúmeros espaços de diálogos e discussão. Ao mesmo tempo, dentro da Zona Azul da COP aconteciam manifestações lideradas por ministros do governo Lula. Lá fora, indígenas Munduruku bloquearam o acesso à COP para denunciar o circo que se passava lá dentro, exigindo uma reunião com o governo para que atendam às suas demandas de proteção da floresta e do território dos quais são guardiões ancestrais e cuidadores. Nas palavras da porta-voz: “ninguém entra nem ninguém sai, acabaram-se as selfies”. Ainda ao mesmo tempo, na Zona Verde (aberta à sociedade civil), dezenas de eventos paralelos aconteciam. Em suma: os espaços fragmentavam-se e confundiam-se totalmente. A Cúpula, que era suposto, na tradição do movimento, ser combativa, contava com a presença do governo. Dentro da COP, os protestos eram liderados pelo governo ou então, quando não era esse o caso, expulsos violentamente. O que era o governo, e o que era o movimento? Foi esta indistinção que levou a que muito menos pessoas do que o esperado participassem em Belém. Em primeiro lugar, devido à dispersão de atividades que poderiam ter resultado num processo unificado e combativo. Em segundo lugar, porque a dominação do governo Lula sob o movimento social no Brasil significou a asfixia da autonomia e da crítica livre, levando a que as condições logísticas para que milhares estivessem em Belém na Cúpula (com alojamento, etc) não se conseguissem materializar.

Estivemos em Belém de 8 a 14 de Novembro, participando primeiro dos Encontros Ecossocialistas na sua totalidade e depois em apenas 2 dias da Cúpula dos Povos (12 e 13 de Novembro). A Cúpula contou com a presença de milhares de pessoas vindas de delegações de todo o Brasil, e algumas centenas de pessoas vindas de delegações internacionais. Aconteceram dezenas de sessões paralelas, diálogos, debates, demonstrações culturais, e espaços de discussão. No dia 15 de Novembro, a marcha final reuniu 7 mil pessoas: mas sem nada de novo e, mais uma vez, com o governo Lula à cabeça.

A maior contradição enfrentada pela Cúpula e pelos movimentos sociais no Brasil é precisamente essa: o negacionismo pode ser de esquerda? Não existe extrativismo bom: ou a exploração de combustíveis fósseis (ainda por cima na Amazónia) é uma linha vermelha, ou então os movimentos estão a deixar-se ser arrastados pelo medo de travar o colapso climático. Pela primeira vez na tradição dos movimentos sociais no Brasil, a conferência paralela alinhava-se com a oficial. Desde uma retrospectiva histórica do movimento por justiça climática, devemos perguntar-nos: para que servem afinal as conferências paralelas? Porque é que estamos surpreendidos face ao estrangulamento do governo Lula à participação e crítica autónoma e independente dos movimentos sociais?

A Cúpula permitiu um espaço de encontro ao movimento por justiça climática. Organizar uma conferência destas dimensões com condições logísticas tão precárias deve ter sido um imenso desafio. Mas, agora que o circo da COP está quase a acabar, devemos perguntar-nos: é desta que vamos abandonar este espaço? Como podemos pensar novos momentos de encontro amplo que sejam críticos aos processos institucionais do capitalismo e que não tenham medo de fazer o que seja necessário para travar o colapso climático?

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