O que é que o aumento do autoritarismo significa mesmo para a esquerda? – Sinan Eden
1 Um problema, qualquer problema, em última análise, só pode ser resolvido no nível de abstração em que ele reside.
Um problema estratégico não pode ser resolvido por um manifesto político. Uma falha comunicativa não pode ser resolvida por uma mudança organizativa. E também, um erro de alinhamento político não pode ser resolvido por uma campanha comunicativa. Isto aplica-se até a situações pessoais: É sempre preciso identificar onde reside o cerne de cada problema. Subestimar ou sobreestimar o âmbito dele coloca-nos num registo pouco produtivo.
Estou a dizer estas tautologias porque todas nós estamos a falar sobre a ascensão do autoritarismo, mas tenho a intuição que não estamos a abordá-la no registo adequado.
2 Estamos a viver num período de banalização de barbárie.
Para começar, como Nancy Lindisfarne e Jonathan Neale descreveram há um ano, a recente destruição total do Gaza tem várias continuidades com a história e tem vários paralelos com outros genocídios atuais, mas tem uma novidade única de ser extremamente visível e disponível para toda a gente observar.
Há também uma campanha comunicativa proativa. A forma como o rapto do presidente de Venezuela foi abordada faz parte da mesma tendência que os tweets do Donald Trump sobre destruir a civilização iraniana. Querem que nós discutamos se foi invasão ou operação, se é uma guerra ou um conflito; enquanto eles próprios estão muito mais focados em passar uma mensagem para nós todas: “Nomenclatura é divertida, mas o nosso critério para fazer algo é se nos apetece ou não; tá?”.
Outra vertente, de repressão legal, envolve a criminalização dos movimentos e das populações que não estava no horizonte há uns anos. De repente na Europa temos dezenas de milhares de detenções, centenas de ativistas no prisão e várias organizações acusadas de associação criminosa – e a esmagadora maioria delas são grupos e pessoas que têm feito coisas completamente dentro das normas. Mais recentemente, do outro lado do oceano veio também o ICE, que criminaliza efetivamente qualquer pessoa nos nossos bairros.
A moeda de “o que já não é possível” tem o outro lado: “o que já é possível”. Nota-se algum aumento na audácia da extrema-direita, acompanhado por um aumento exponencial na visibilidade da mesma, ativamente promovida pela comunicação social. (Queria aqui dizer que é a comunicação social do sistema quem faz isso, mas devemos reconhecer que nós todas também participámos nessa campanha em alguns momentos.)
Tudo isto dá-nos um novo contexto, um contexto para qual não nos tínhamos preparado. 1
1 – Com alguma cautela, quero dizer que a malta do clima tem insistido que isto é o percurso político e social que vai acompanhar o colapso climático e por isso tem-se preparado emocionalmente e politicamente para o que vem. Mas seria um exagero total a achar que o movimento climático desenvolveu as ferramentas necessárias para enfrentar a tempestade.
3 Estamos então numa situação de paralisação e recuo.
Todas notamos isto. Às vezes é mais subtil (nos protestos ou nos eventos dos movimentos), às vezes é gritante (por exemplo, depois de eleições).
Isto é uma espécie de feedback loop (retroalimentação): Por não nos termos preparado, depois de algum impacto está a ficar mais difícil mobilizar recursos para mitigar, o que nos deixa menos preparados para o próximo momento.
É um percurso rumo ao fascismo, não só como um sistema de governança mas também como norma cultural.
4 A tudo isto acrescenta-se a crise da esquerda, que nos dificulta a saída do impasse.
A esquerda parlamentar não só ficou com menos expressão mas também dentro dos votos de esquerda houve uma viragem à direita (com o Livre, que não tem tido uma perspetiva de engajamento com os movimentos sociais, ganhar mais força).
Vários novos coletivos de caráter partidário surgiram, o que pode ser visto (pelo público geral e pelas pessoas que se identificam como da esquerda) como experimentação mas também como fragmentação.
No meio disto, toda a gente reclama com a falta de audácia na esquerda (apesar de que as expetativas sobre que tipo de audácia é necessária têm variado muito).
5 Ao mesmo tempo, estão-se a produzir imensos artigos, eventos e debates sobre extrema-direita e fascismo e quase todos estão em modo de repetição de trivialidades. Está a circular muita informação mas pouco insight, muito diagnóstico mas poucas propostas, muitas descrições mas poucas tarefas para nós. Nota-se com clareza que um conjunto de pessoas estão a tentar digerir e processar algo para qual não estavam preparadas (incluo este texto neste ambiente).
6 Sinto que estamos à procura de uma solução cosmética para o nosso problema profundo.
O autoritarismo do sistema veio para ficar, porque isso é o que a crise climática significa para a classe dominante. Isto não é um vento, não é uma maré. Isto não é temporário. Não podemos esperar que passe.
A barbárie é a nova normalidade que querem implementar a nível mundial. Não é um mero ajuste, não é uma manobra. O autoritarismo deles é intencional e é estrutural.
Não haverá uma táctica simples para contorná-lo. Não haverá uma mudança incremental no nosso funcionamento que vai dar-nos o salto qualitativo.
Sei que dizer isto a nós próprias é difícil, porque depois não sabemos o que fazer com esta informação.
O que gostaria de propor para nós é: Precisamos de uma nova cultura de aprendizagem que não está nada normalizada nas nossas organizações.
7 Aprender dos outros movimentos tem agora de ter um significado diferente.
Temos muitos camaradas do Sul Global que já passaram por estes processos (em tandem com o facto da crise climática bater mais cedo e mais forte no Sul Global). Desfazer a nossa mitologia sobre “democracia europeia” implica reaprendermos para que serve um Estado em última análise. Isso pode ajudar-nos a perceber como construir movimento. Há milhares de dirigentes que sabem fazer isso, temos é de escutar bem o que têm para dizer.
Só que, se calhar, essa escuta tem de ter uma qualidade diferente. Temos “aprendido” coisas muito práticas dos outros lugares: ferramentas, tácticas, formas de fazer… Temos de começar a aprender coisas muito mais profundas: valores orientadores, formas de ver, culturas organizativas… Aprender essas coisas significa uma imersão nessas experiências e uma curiosidade que nós normalmente não temos para com quem não é da linha do partido.
Em outras palavras, aprender dos outros vai ter de significar aprender dos movimentos com quem não nos identificamos. Ter uma curiosidade genuína nesse nível vai requerer uma cultura de camaradagem muito mais abrangente.
8 Aprender do passado tem agora de ter um significado diferente.
Até agora, muitas de nós “aprendemos” do passado, no sentido de transpor uma prática ou uma análise do passado para hoje. (Quando citamos as lideranças de esquerda, é para isso que estamos a contribuir também.) A partir de agora, aprender do passado tem de dar muito mais peso de aprender com os fracassos. Ou seja, a aprendizagem do movimento e em movimento tem de ter no centro não a repetição de uma experiência mas sim a não-repetição de erros.
Isto implica uma honestidade radical e auto-reflexão que a esquerda europeia não tem tido mas só a esquerda tem capacidade para ter.
Implica também uma transformação radical interna que a esquerda europeia não tem como cultura organizativa e que em pouco tempo temos de instalar.
9 Aprender é a única forma de dar sentido à vida. Transformar-se é a melhor forma de nos sentirmos vivos. Temos uma linda oportunidade de construir uma esquerda viva.
Sinto que estamos prontas para estas conversas que são simultaneamente difíceis e deslumbrantes.