Foi deprimente. Foi a minha pior experiência a votar. Nunca tinha votado tão triste.
Houve também uma campanha eleitoral que me deprimiu ainda mais que os programas (que tinha lido com cuidado). Houve, ao mesmo tempo, ações do movimento pela justiça climática, antes, durante e logo depois das eleições – talvez a única fonte de alívio (não vou dizer esperança). Mas aconteceu uma coisa estranha:
Pessoas envolvidas com organizações partidárias (militantes, apoiantes ou ativistas em coletivos partidários) escreveram artigos, comentários e comunicados para explicar ao movimento pela justiça climática que o 5º nível do inferno é melhor que o 7º nível do inferno.
Quero só esclarecer: Nós sabemos.
É que nós lemos os programas.
Usando a diferenciação abaixo:

chegámos a esta conclusão:

A análise completa está aqui
Temos pelo menos dois problemas iniciais.
1) A situação é mesmo deprimente para quem vive em emergência climática.
Não estamos a falar apenas de programas insuficientes ou de medidas pouco claras. Estamos a falar de programas que, se fossem aplicados, garantiriam o colapso da civilização e, em muitos aspetos, acelerariam o colapso. Não são iguais, claro (e a tabela reflete isso). E também não são iguais em outros aspetos (há mais tabelas no link, não vou repetir a análise toda aqui). Lendo os programas com atenção, uma coisa fica clara: infelizmente, nenhum partido político em Portugal pode neste momento dizer que está dentro ou que apoia o movimento pela justiça climática com o mínimo de honestidade. Fazem parte de um movimento pelo colapso climático.
2) A malta dos partidos políticos que veio contestar a crítica também não contesta a análise.
Ou seja, não nos dizem que estamos a mentir. Elas também sabem que os seus partidos rejeitam travar a crise climática. Então falta explicar como chegámos a esse sítio. Como é que não houve revoltas e motins internos? Como é que engoliram o “realismo político” que é cada vez mais igual ao irrealismo climático?1
Estes dois problemas produzem um terceiro problema: criam um vazio institucional.
O colapso climático não é um filme de Hollywood, não vai acontecer num evento extraordinário. O colapso climático é o estado em que estamos. A deterioração social e política que estamos a experienciar é uma das manifestações do colapso que está a acontecer. A normalidade não está no baralho. A ascensão da extrema-direita não está a acontecer em Portugal duma forma isolada. Isto é a crise climática do capitalismo, para qual o capitalismo tem uma proposta: avançar na acumulação e até ao fim e apertar todos os regimes políticos para garanti-lo pela força. A contra-proposta de manter tudo no mesmo e procurar consensos com políticas moderadas só alimenta a desconexão entre a realidade e os políticos profissionais. Como não há vazios na política, alguém vai enchê-lo, com promessas falsas ou verdadeiras.
Nada disto é limitado às organizações partidárias. Partidos são uma forma de organização social, mas há também associações, ONG, coletivos informais. Não diria que os partidos estejam fazer algo único no sentido do afastamento da realidade climática. O nosso conformismo é normalizado, enraizado e generalizado. E eu não me excluo desse conformismo. Quebrá-lo implica dizer a nós próprias que falhámos, que é preciso experimentar e tomar riscos – estratégicos, tácticos, organizacionais, pessoais, emocionais. Mas para isso funcionar, temos de dizer a nós próprias que o estado em que estamos é inaceitável e nós não nos aceitamos como cúmplices na atual situação e no seu agravamento.
O convite mantém-se. O desafio mantém-se.
Porque a emergência mantém-se.
1 O argumento de que as ações alienam pessoas podia ser válido se as pessoas antes das ações não estivessem alienadas, mas estas eleições mostraram o nível de alienamento da realidade até dos próprios partidos de esquerda. Então, as ações disruptivas não estão a alienar ninguém, mas só a visibilizar uma alienação generalizada. Achar que vamos contornar esta alienação sem enfrentá-la é ilógico. É como dizer que vamos resolver o racismo em Portugal sem dizer aos portugueses que há racismo em Portugal.
