Leonor Canadas, ativista do Climáximo
Os resultados eleitorais são assustadores e extremamente expectáveis. Caminhamos na direção do colapso e perante a incerteza avassaladora, a direita promete um regresso ao passado e ao ódio entre povos, enquanto a esquerda institucional se perde na defesa de uma ordem social que já colapsou, recusando-se a ser um farol do futuro e de um novo mundo. É de fora do parlamento que terá de vir a solução. A crise climática já impôs uma nova realidade, que estará em crescente agudização. A organização popular contra as instituições do sistema que criaram a atual situação é o único caminho aberto para evitar a barbárie social preconizada pelo fascismo.
A antiga ordem social chegou ao fim. A ascensão da direita fascista não é um acaso. É um fenómeno que, como em outros momentos históricos, se impõe em momentos de crises estruturais do capitalismo. A resposta do sistema é garantir, pela violência, a continuação da acumulação de capital e lucros. O capitalismo perpetua a utilização de combustíveis fósseis sabendo que tal leva ao colapso das condições materiais para a existência de civilização, e utiliza as crises provocadas por esta degradação para impor a sua hegemonia pela força. A ascensão do fascismo, não sendo um acaso, pode ser travada. Esta tarefa exige mudanças estratégicas e programáticas em todas as organizações que não se resignem ao colapso civilizacional. Isso implica uma análise honesta da realidade que a crise climática precipita sobre todas nós.
A ascensão do Chega e dos fascismos está, por toda a Europa, a ser suportada pela incapacidade dos restantes partidos políticos, da esquerda ao centro, responderem à crise climática e às crises que esta está a acelerar. Esta incapacidade parte de um desajuste estrutural das organizações que centraram a luta política na disputa política parlamentar e institucional. Há um total desajuste entre aquele que é o debate político (e os programas eleitorais) e aquela que é a realidade, que se instaura de forma violenta pelo planeta, e nas nossas vidas – uma realidade de escassez de recursos naturais chave para a nossa sobrevivência, caos social e político, migrações em massa, conflitos armados e guerras, acentuando todas as injustiças e as crises humanitárias. A distância entre o que é dito no debate político e aquilo que se sabe ser a realidade tornou-se um abismo.
Nenhum dos partidos com assento parlamentar levantou durante a campanha uma discussão ou propostas adequadas para travar o colapso da sociedade. Isto não quer dizer que esse colapso não estivesse presente. A centralidade do fim da antiga ordem social com o aprofundar do caos climático refletiu-se nas discussões sobre migração, serviços públicos, investimento em militarização e defesa, apoio às guerras, entre outros. Esta foi comandada por um discurso xenofóbico, racista, anti-migração, pró-investimento na militarização, defesa de fronteiras, desinvestimento do estado social, e perpetuação do negócio imobiliário. Estes temas foram dominados pela extrema-direita e carregados por toda a direita, o centro e a “esquerda” militarista.
Do outro lado, a recusa da esquerda de agir perante o fim do mundo como o conhecemos traduziu-se numa campanha fraca e reativa, em defesa dos restos da social democracia, aceitando os termos impostos pela extrema-direita à conversa mais séria e importante que já alguma vez nos foi imposta. Os debates sobre migração são ilustrativos. A defesa do direito à migração e dos direitos humanos foi subordinada, pela esquerda parlamentar, a dados contabilísticos sobre impostos e contribuições para a Segurança Social dos imigrantes. Em outros temas também foi sintomática a rejeição de entender o atual momento político, a rejeição da emergência climática e a necessidade urgente de uma visão e plano que proponha o fim de um sistema que declarou guerra aos povos e ao planeta. Já sabíamos que o calculismo e moderação narrativa, programática e estratégica não poderiam senão resultar na derrota histórica da esquerda parlamentar.
Finalmente, o antifascismo não é um programa político isolado. Derrotar o fascismo exige organização popular e um plano capaz de desarmar as forças políticas e financeiras que lançaram esta guerra planetária contra a humanidade. A cautela e a moderação, agora mais do que nunca, não nos servem e não nos protegerão. Precisamos um programa de ação que faça cumprir a urgência que nos é imposta pela ciência climática, pelos imperativos de justiça, e pela recusa a aceitar que há milhares de milhões de vidas dispensáveis. Este é um programa pelo fim dos combustíveis fósseis até 2030 nos países do Norte Global. O plano de desarmamento e o plano de paz, divulgado pelo Climáximo, é um plano das pessoas para as pessoas, a ser implementado pela força do poder popular, às mãos de todas aquelas que se recusam a aceitar o colapso climático como o destino final da humanidade.
Começamos no dia 1 de Junho na Assentada Popular no Aeroporto de Lisboa.
