Skip links

por Matilde Alvim, ativista do Climáximo
Expresso, 21 de Maio de 2026

Se não travarmos a crise climática e pusermos fim à economia fóssil até 2030, não só os preços subirão de forma desmesurada como os alimentos essenciais serão cada vez mais escassos

Na quinta-feira passada, um grupo de cerca de uma dezena de apoiantes do Climáximo entrararam num supermercado Continente, recolheram alimentos e bens de primeira necessidade, saíram sem pagar, e redistribuíram a pessoas em situações de pobreza.

A falsos moralistas digo: crime é que haja quem passe fome e não consiga alimentar a sua família num país em que 10% dos mais ricos têm 60% do património nacional. Crime é que o CEO da Jerónimo Martins ganhe em média 226 vezes mais que o trabalhador comum da mesma empresa e que o da Sonae ganhe 76 vezes mais. O crime é que 660 mil pessoas em Portugal vivem preocupadas por não terem comida suficiente para alimentar a si e às suas famílias. É moral que haja gente a passar fome enquanto outros nem sabem o que hão de fazer ao dinheiro? É legal deixar pessoas e comunidades na fragilidade, na fome, e na doença por falta de alimento. Se é, é porque há um problema na sociedade.

A alimentação saudável é um direito básico e inegociável que deve ser garantido a todas as pessoas. Mas quando quase 5% da população portuguesa vive em situação de insegurança alimentar, torna-se claro que estamos a atingir novos patamares no fosso, no abismo da desigualdade. Num artigo de 14 de maio, a DECO Proteste afirmava que o preço do cabaz alimentar com 63 bens essenciais já aumentou mais de 18 euros desde o início do ano. Em março, a mesma entidade anunciou que o preço do cabaz alimentar tinha atingido o valor “mais alto de sempre”. Sejamos claras: enquanto os CEOs das grandes superfícies se vangloriam pelo “crescimento do negócio” e de “anos extraordinários”, as pessoas comuns contam os cêntimos para poderem comer.

O aumento dos preços da alimentação é também consequência direta da guerra iniciada pelos Estados Unidos e por Israel, cuja sede pelo controlo de territórios e recursos (nomeadamente, combustíveis fósseis) os tornam, na prática, organizações terroristas com assento na ONU. Há poucos dias, a SIC noticiava que devido à guerra “a FAO, o programa alimentar das Nações Unidas, diz que o preço dos alimentos está a aumentar em todo o mundo pelo terceiro mês consecutivo”. Na prática, o que está a acontecer é que a fatura da guerra promovida pelos braços armados do imperialismo fóssil está a ser paga, por um lado, pelas populações afetadas pelas bombas e mísseis; e, por outro, pela classe trabalhadora dos países do Norte Global na forma de aumento do preço da gasolina, do gasóleo agrícola, dos alimentos e de bens essenciais.

Ao mesmo tempo, a crise climática – promovida pelo mesmo sistema baseado em combustíveis fósseis – está a tornar a produção agrícola cada vez mais volátil, colocando em causa a capacidade de alimentar o mundo. Em Março deste ano, depois da passagem das tempestades Kristin, Leonardo e Marta, estimavam-se prejuízos de cerca de 500 milhões de euros no setor agrícola. Se não travarmos a crise climática e pusermos fim à economia fóssil até 2030, não só os preços subirão de forma desmesurada como os alimentos essenciais serão cada vez mais escassos. O que isso produzirá tem um nome: fome.

Precisamos de travar a crise climática e o sistema fóssil para garantir sistemas agrícolas viáveis que alimentem as populações com base nos princípios da justiça, da solidariedade, e da soberania alimentar, respeitando os limites da Terra. Precisamos cantinas públicas, hortas urbanas e cadeias de proximidade que garantam também trabalho e salários dignos a todos os que trabalham na agricultura. Precisamos de salários para viver e não para sobreviver, e de tornar a habitação digna um direito e não um luxo, fechando o fosso de desigualdade que tem vindo a aumentar entre ricos e pobres em Portugal.

Há dois lados sobre este tema: o dos governos, das empresas fósseis e de milionários e bilionários que lucram com a miséria alheia; e o de todas as outras pessoas. O lado deles parece mais composto numa reação histérica mas é óbvio que nós somos mais. É hora de nos livrarmos do medo. Façamos da nossa raiva e desespero face às injustiças uma força coletiva imparável para lutar por um clima estável e por um mundo justo. Redistribuamos dignidade. Redistribuamos justiça.