João Camargo – Investigador em alterações climáticas, membro do Climáximo
Artigo de opinião no Expresso, 20 Novembro 2025
Dois enormes projetos de energia solar, Sophia e Beira, no distrito de Castelo Branco, são emblemáticos do oportunismo económico que se disfarça de luta contra a crise climática. Mais uma vez, os governos não passam de mordomos das grandes empresas, num acordo à prova de bala sobre manter o rumo à catástrofe social e ambiental, com fósseis e renováveis
Estes projetos, com muita justiça, têm provocado um clamor popular de oposição na zona Centro. Isso é normal quando se torna óbvio que os principais efeitos imediatos das centrais e das linhas de alta tensão a eles associadas são o abate de centenas ou milhares de árvores protegidas e criação de áreas de exclusão, num momento em que Portugal vive evidentes crises de desflorestação e desertificação. Para além disso, qualquer eventual descarbonização (fosse esse o propósito) não é perceptível para quem quer que viva na região.
O projeto Sophia prevê o abate de 421 sobreiros e 1120 azinheiras protegidas para instalar uma das maiores centrais solares do país, cobrindo 400 hectares e prometendo produzir 2,6% de toda a eletricidade nacional atual. Ali perto, outra mega central chamada Beira, numa área ainda maior promete abater mais 460 azinheiras para instalar 425 mil painéis em 524 hectares, boa parte dos quais em zonas de proteção especial. Parte da área a ser ocupada é dentro do Parque Natural do Tejo Internacional. A promotora dos dois projetos é a Lightforce BP, um spinoff da BP – British Petroleum, que faz dinheiro com tudo o que pode: fósseis, renováveis, mas também com estações de serviços, restaurantes ou o que quer que o oportunismo do mercado do momento dite.
Para descobrirmos que é a Lightforce BP a promotora temos de ultrapassar a opaca camada típica dos grandes projetos com o Estado Português. No projeto Sophia, a proponente é a Coloursflow – Unipessoal LDA, que segundo o Racius, é uma empresa com um capital social de 1€. Já no projeto Beira, a proponente é uma tal de Ignichoice Renewable Energy Unipessoal, Lda., com uns invejáveis 1000€ de capital social, que já tem vários projetos em desenvolvimento. Não deixa de espantar que com tantas décadas de conversa sobre combate à corrupção e até um governo de maioria absoluta que colapsou devido a um escândalo ligado com projetos renováveis, continue a ser prática comum e legal inventar empresas de vão de escada para projetos de milhões de euros. Ou a criação de empresas intermediárias para escapar a pagamentos de impostos, como ocorreu na venda das barragens da EDP. As consultas públicas, como tão bem as conhecemos, são uma formalidade inútil, tão próximas de ter consequências como as eleições. Há sempre um “valor mais alto que se alevanta”, uma tragédia ou emergência mediática, um imperativo de segurança ou competitividade ou outra miragem qualquer. Somos sempre empurrados para o caminho da destruição e do colapso, enriquece quem já é rico à custa da destruição do bem comum.
O modelo de produção elétrica renovável em Portugal (e em muitos outros países) é de uma irracionalidade profunda. A energia solar, como a eólica, está a ser montada principalmente na base de grandes centrais e de grandes redes de distribuição. Estas destinam-se principalmente a abastecer uma quantidade contínua e crescente de energia ligada à produção incessantemente crescente de produtos – sejam eles quaisquer forem – que permitam com que essa medida universal de felicidade e paz na terra, o Produto Interno Bruto, cresça (é ironia). Este é o modelo monopolista, que não é mais do que a base do capitalismo por todo o mundo: grandes capitalistas com enorme poder sobre bens essenciais e que, controlando os preços, comandam um poder quase absoluto e anti-democrático sobre as populações, com toda a política ajoelhada a seus pés. Este modelo é uma cópia da indústria fóssil, mimetizado também pela maioria das indústrias. Uma mudança para renováveis seria uma excelente oportunidade para abandonar esta megalomania irracional, mas um modelo racional significaria distribuir poder. Em vez de aumentarmos a resiliência e a autonomia instalando produção o mais localizada possível e autoconsumo como fonte preferencial de eletricidade, estimulando a instalação de produção a nível do bairro ou mesmo da casa, produzem-se as enormes centrais e os ineficientes sistemas de distribuição para garantir monopólio e dependência. O modelo catastrófico de renováveis mimetizando as energias fósseis é obviamente estúpido. O que isto produz é um sentimento popular de oposição às renováveis.
Poderia existir uma transição energética em novos projetos de renováveis se houvesse aqui algum elemento de transição. Se o fim da utilização de gás para produção de eletricidade estivesse diretamente associado a algum projeto ou vários projetos, se os empregos perdidos no encerramento da refinaria fossem transferidos para novos projetos renováveis. Mas não há qualquer elemento de transição. Não existe transição energética, só existe expansão energética. Não existe transição justa, só existem despedimentos. Os projetos de renováveis só são associados a descarbonização por propaganda e para darem acesso a financiamento para as grandes empresas que, como sempre, vivem à sombra do dinheiro público.
Numa altura em que os jovens se mobilizam pelo fim aos combustíveis fósseis, uma maneira simpática de resolver esta contradição óbvia seria dizer como alguns movimentos em Espanha “renováveis sim, mas não assim”. Mas, sendo uma maneira simpática, não é suficiente. É urgente uma compreensão de que estamos efetivamente na maior crise que a humanidade alguma vez atravessou e que o sistema que nos trouxe até aqui nunca vai parar de cavar o buraco em que nos encontramos. Por isso se diz que o capitalismo declarou guerra à Humanidade: porque sabe que sem descarbonizar vamos colapsar, mas apesar disso não só não descarboniza, como ainda perverte possíveis soluções como as renováveis copiando os modelos mais destrutivos possíveis. Este sistema nunca teve de reparar o que destruiu e nunca irá fazê-lo. Por isso faz projetos destruidores, porque nunca precisa ter em conta o que destrói. Ainda assim, muita gente acaba a hesitar sobre a única solução que existe para travar o colapso climático e global – parar de utilizar combustíveis fósseis – porque há outros problemas que surgem. Nunca pararão de surgir. Mas se não se desmantelar este sistema, o que só é possível se se acabar com os fósseis, ficaremos até ao último momento a atacar as consequências desta guerra em vez de atacarmos as suas causas.
