Verão 2026: Face Ao Inferno Climático, Só O Povo Salva O Povo
O Verão de 2026 foi o mais quente de sempre na Europa – batendo o antigo recorde de 2003 – e o mês de Agosto foi o mais quente de sempre a nível mundial. O calor extremo que atingiu a Europa (e o mundo) foi uma bomba climática provocada pela queima de combustíveis fósseis, alimentada pela ganância das empresas mais poderosas do mundo e a cumplicidade de governos genocidas. Alguns dos impactos desta bomba só na Europa incluem:
Na Alemanha morreram cerca de 16 000 pessoas devido ao calor em excesso. Em Dresden a temperatura ficou acima dos 29.4ºC uma noite inteira (recorde nacional) no dia 27 de junho
Em França houve a maior evacuação desde a II Guerra Mundial devido aos incêndios florestais, que emitiram por si só mais de 1.5 milhões de toneladas métricas de carbono para a atmosfera
No Reino Unido houve 5 ondas de calor contabilizadas, incluindo uma no final da Primavera; e a seca foi declarada em todo o País de Gales e ⅔ de Inglaterra. Em Londres a temperatura não desceu para debaixo dos 20ºC por 5 dias consecutivos (recorde) em junho
No Estado Espanhol houve mais de 43 grandes incêndios, entre os quais o incêndio em Almería que matou 14 pessoas
Em Portugal
Apesar de alguns dos efeitos terem sido mais extremos em outros países da Europa, este foi um Verão Infernal também para nós que moramos e trabalhamos em Portugal.
O calor extremo afetou todos os aspetos das nossas vidas durante este Verão, atingindo com mais gravidade as populações mais vulneráveis – idosos, pessoas com saúde frágil, grávidas, crianças, e famílias que vivem em habitações precárias. Houve cerca de 650 mortes em excesso devido ao calor extremo, com destaque para a onda de calor no início de julho. No entanto, os planos da direita e das empresas capitalistas para desmantelar os serviços públicos e privatizar tudo tiveram sucesso em garantir uma resposta muito aquém do necessário nos hospitais públicos; bem como, em muitos municípios (inclusive Lisboa), a falta de abrigos públicos ao calor e outras medidas cruciais para diminuir as temperaturas nas cidades (mais jardins e espaços verdes, etc).
A grande maioria das pessoas comuns passou um calor infernal no seu local de trabalho – em particular trabalhadores agrícolas, higiene urbana, armazéns sem refrigeração adequada, restauração, setor informal, etc. Ao final do dia, os trabalhadores chegam a casa e não conseguem dormir uma noite descansada devido ao fenómeno cada vez mais recorrente das noites tropicais (que é quando numa noite a temperatura não baixa dos 20ºC, o que impede o corpo de arrefecer o suficiente para o descanso). As casas cada vez mais precárias – e cuja renda não para de aumentar – não são termicamente adequadas e, para muita gente, não dá para simplesmente pagar a conta de ter uma ventoinha ligada. Os espaços públicos climatizados são também cada vez mais reduzidos: se queremos refrescar-nos, parece que temos de ir consumir para um centro comercial em vez de podermos ter acesso a abrigos de calor, jardins, piscinas públicas, etc.
Os transportes públicos foram outro inferno: muitas vezes sobrelotados, com elevados tempos de espera e várias vezes sem a climatização necessária, as comutas diárias de milhares de pessoas foram infernais ou, no limite, perigosas.
No interior do país, ao calor insuportável somaram-se os crónicos e estruturais incêndios que, todos os anos, nos demonstram o resultado de um território inteiro gerido pelas empresas de celulose. Vimos incêndios (e, na realidade, ainda estamos a ver – entrámos no Outono e as temperaturas chegam quase aos 40ºC) em Vouzela, Castelo de Paiva, Barcelos, Cinfães, Arouca, Setúbal, Torre de Moncorvo, Santo Tirso, entre muitos outros. Este ano, até agora, a área ardida foi menor mas o número de fogos aumentou 13% face ao ano passado. Chamamos ainda a atenção para o facto de, em muita da zona Centro do país, as áreas afetadas pela tempestade Kristin terem ainda muito trabalho de limpeza por fazer.
A resposta do Climáximo: só o povo salva o povo
Organizámos uma resposta em duas frentes: nas cidades, para fazer frente ao calor extremo; e no campo, em solidariedade com as populações atingidas pelos incêndios florestais.
No pico da onda de calor, entre 2 e 7 de julho, organizámos 3 brigadas de refresco popular. Em frente à estação do Rossio e na estação de autocarros do Areeiro, em Lisboa, distribuímos água fresca gratuita e falámos com as pessoas na rua e à espera dos transportes sobre a crise climática, a onda de calor, de que forma são afetadas, e o que acham que poderiam ser soluções. No total, conversámos com cerca de 70 pessoas. Todas as pessoas com quem falámos sentem que as suas vidas são afetadas pelo calor extremo, e muitas reportaram preocupações e ansiedade devido ao impacto do calor na saúde – em particular, nas pessoas mais velhas de quem cuidavam. A maior parte das pessoas referiu também o quão insuportável é estar em casa – que deveria ser um local seguro – devido à falta de condições térmicas. No total, este Verão organizámos 4 brigadas de refresco popular.
Também experimentámos algo novo para nós: em conjunto com a Cooperativa Rizoma, no bairro dos Anjos em Lisboa, abrimos um abrigo de calor durante os dias de aviso vermelho do IPMA. A Rizoma tem um espaço com ar condicionado onde dava para acolher os vizinhos a passar calor. Fizemos também uma colagem de cartazes na rua da Rizoma para que mais vizinhos soubessem da iniciativa. O abrigo de calor esteve aberto durante 2 dias em julho. De uma próxima vez, queremos tentar que o abrigo possa estender-se para além do horário laboral, de modo a que mais pessoas possam usufruir dele.
Na frente da solidariedade com as pessoas atingidas por incêndios, o Climáximo organizou uma brigada de apoio a Vouzela após um incêndio que queimou mais de 15 mil hectares a meados de julho. Podes ler aqui o resumo daquilo que fizemos. Durante todo o Verão, estivemos ativos na rede nacional de resposta rápida a incêndios, articulando-nos com as populações de vários locais do interior do país para monitorizar a situação florestal. A 19 de setembro, marcámos presença no protesto “Parar o Inferno, Criar um Futuro” organizado pela rede Floresta do Futuro em Valongo do Vouga.
Próximos passos
Em primeiro lugar, continuamos alerta: apesar de oficialmente o Verão já ter acabado, em crise climática os incêndios tornam-se cada vez mais imprevisíveis (recordamos 2017, em que um dos maiores incêndios teve lugar em Outubro).
Este Verão testámos várias ideias novas para nós, tais como as brigadas de refresco popular e os abrigos populares de calor. Estamos a avaliar as nossas aprendizagens e perceber como no próximo Verão poderemos fazer melhor, envolvendo mais pessoas na resposta popular ao calor extremo provocado pela queima de combustíveis fósseis.
Por agora, sabemos que o fenómeno do El Niño se aproxima. Ao mesmo tempo, várias famílias afetadas pelas tempestades do Inverno passado continuam sem resposta. Estamos solidárias com todas as pessoas afetadas, e reafirmamos o nosso compromisso em construir uma rede de resposta rápida às catástrofes climáticas assente na solidariedade e na luta contra as causas estruturais. Estaremos também atentas às catástrofes que irão acontecer a nível europeu e internacional, procurando apoiar mecanismos populares de resposta rápida que sejam ativados.
Para além de tudo isto, estamos empenhadas na construção do movimento das populações atingidas pelos incêndios, inspiradas pelo enquadramento internacional do Movimento dos Atingidos por Barragens, Crimes Socioambientais e Crise Climática. Desde 2022, quando realizámos a Caravana pela Justiça Climática, que começámos a co-construir redes de resposta rápida populares aos incêndios florestais que todos os anos devastam o interior do país. Há um ano, iniciámos o trabalho profundo da organização de base em várias comunidades atingidas pelos incêndios florestais. Sabemos que, com o agravar da crise climática, a destruição provocada por estes desastres ficará cada vez mais exponencial. Mas sabemos também que as pessoas atingidas pelos incêndios não são vítimas, mas sim sujeitos de luta; e que, juntas, podemos proteger as comunidades, o território, e a floresta, lutando contra a destruição e pelo futuro.
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