Leonor Chicó, militante por justiça climática
Votar no fim do mundo vs lutar pelo nosso futuro
Nestas eleições, a escolha é entre o fascismo (fim do mundo) e o mesmo de sempre (fim do mundo um pouco mais tarde). Para piorar, uma parte das pessoas mais impactadas nem poderão votar.
Daqui a uns dias, seremos confrontados com um dilema existencial: votar no fim do mundo ou lutar pelo nosso futuro. No dia 8 de fevereiro, elegemos o próximo Presidente da República, que terá mandato até 2031. A realidade é dura: nenhum dos candidatos à segunda volta apresenta um plano para garantir o futuro das gerações presentes e futuras, travar a crise climática e evitar o rumo ao colapso civilizacional – um plano que impeça a “bomba” Kristin, que assolou o centro de Portugal, se torne o novo normal.
Sejamos realistas. O estado a que isto chegou é assustador e põe em causa as perspetivas de futuro de jovens no mundo todo. A crise climática está aqui e agora e os políticos, ao não terem medidas ambiciosas para travar a crise climática e ao perpetuar políticas que colocam os interesses da indústria fóssil acima das pessoas, estão com o pé no acelerador rumo ao colapso climático e civilizacional.
Quaisquer possíveis contra-argumentos de “alarmismo” desmedido são colocados em perspetiva quando nos confrontamos com os efeitos devastadores da crise climática. Uma sucessão de depressões de cariz quase tropical, como a Ingrid, Kristin ou Joseph, assolaram dezenas de concelhos pelo país, deixando pelo menos 12 vítimas mortais, milhares de pessoas sem acesso à eletricidade, água e casa.
Estes fenómenos não são normais, nem apenas “mau tempo”. São fruto da inação dos nossos governos perante a crise climática, da escolha premeditada em continuar a queimar combustíveis fósseis: não só não se está a cortar emissões de gases de efeito estufa como estas continuam a aumentar. Isto, mesmo sabendo que isso significa cheias, tempestades, incêndios e outros fenómenos extremos com uma frequência e intensidade nunca antes vista.
Os impactos da crise climática são devastadores, com mortes, desalojamentos, crises de saúde pública, guerras, crises de subsistência, austeridade e ascensão do fascismo.
A uma semana da segunda volta das presidenciais, a “bomba” Kristin vem relembrar-nos de uma escolha que temos de fazer: votar no fim do mundo ou lutar pelo nosso futuro, pelo fim dos combustíveis fósseis nos prazos da ciência.
Estas eleições são as últimas eleições decisivas sobre o que acontece em Portugal até 2030, após as legislativas e as autárquicas, e nenhuma das candidaturas à segunda volta propõe crise climática como um tópico de discussão, muito menos leva a cabo os prazos ditados pela ciência: o fim dos combustíveis fósseis em Portugal até 2030.
Olhemos para as opções à nossa frente. António José Seguro configura o “mesmo de sempre”, o status quo, ao manter medidas para travar a crise climática fora da sua campanha. Descurando a centralidade desta crise das políticas nacionais, caminha de mãos dadas com políticos que, há pelo menos 30 cimeiras do clima, falham em dar resposta a esta crise.
De pouco nos serve alusões a um “futuro sustentável” quando estas vêm da premissa de que o capitalismo pode ser verde – não pode. A sua lógica de crescimento infinito e extração contínua num planeta de recursos finitos que coloca os interesses do lucro acima da vida e dos limites ecológicos, afasta-se de qualquer noção de uma transição energética justa.
André Ventura representa o cúmulo do negacionismo climático, com políticas próprias do fascismo em ascensão, onde as políticas populistas de ódio e divisão encabeçam um programa político que visa salvaguardar o capital e colocar os interesses das grandes empresas acima de qualquer possibilidade de vida na terra.
Nestas eleições, a escolha que nos é deixada é entre o fascismo (fim do mundo) e o mesmo de sempre (fim do mundo um pouco mais tarde). Para piorar, uma grande parte das pessoas mais impactadas nem poderão votar para impedir que nos condenem ao colapso climático e civilizacional.
Quando o Governo falha, o Presidente tem de agir. Quando nenhum dos candidatos à segunda volta das presidenciais tem um compromisso para salvaguardar a nossa vida e futuro, nós, pessoas comuns, temos de agir e tomar as rédeas do rumo da História. Essa é a escolha que temos diante de nós: lutar pela nossa vida, pela existência de um futuro onde queremos viver, derrubando o sistema capitalista fóssil; ou rumar à destruição e barbárie sem perspectivas de futuro.
Dia 9 de março, no dia da tomada de posse do novo Presidente da República, está convocado um protesto às 18h20 em frente ao Palácio de Belém para mostrar que não só os estudantes, mas toda a sociedade, não consente que continuem a vender a nossa vida à indústria fóssil.
Só nós podemos garantir a existência de um futuro onde queremos viver, e viver num presente com pessoas que cuidam e lutam umas pelas outras.
