A Luta pela Água
O que aconteceu no acampamento e ações de Soulèvements de la Terre, 16 a 21 de julho, Melle (França)
De 16 a 21 de julho, estivemos na Vila da Água, em Melle, no oeste de França. A Vila da Água foi um acampamento organizado pelo movimento Soulèvements de la Terre e o coletivo Bassines Non Merci (No Bassaran!), localizado na quinta Gennellerie com o apoio do município de Melle e dos agricultores locais, e por onde passaram mais de dez mil pessoas vindas do México, Brasil, Índia, Rojava, Palestina, Suécia, Espanha, Portugal, Alemanha, Bélgica, Chile, Itália, Irlanda, Líbano, e Marrocos, onde marcaram presença cerca de 120 coletivos e organizações, e centenas de voluntários.
O que é o Soulvement de le terre?
As Revoltas da Terra é um movimento, que se inicia nas ZADs em França em 2021, e que tem como objetivo o desarmamento de infra-estruturas industriais poluentes tal como parar novos projectos criminosos, como as “mega-bacias”, auto-estradas e indústria de cimento. No ano passado, houve uma tentativa de dissolução do movimento por de parte do Ministro do Interior francês, tendo sido suspensa e anulada, em grande parte devido às mobilizações, quer em França, quer internacionalmente, contra esta criminalização dos movimentos que lutam pela vida. Contudo, há cerca de 1 ano, numa das grandes mobilizações contra as mega-bacias, 200 pessoas foram feridas pela polícia, tendo ficado 2 pessoas em coma, expondo a violência brutal do estado Francês contra defensores da água.
O que são as mega-bacias e porquê desmantela-las?
Multinacionais e empresários da agroindústria, com a cumplicidade do governo francês, insistem na construção de mega-bacias, existindo já algumas construídas e estando planeadas mais 100 até ao final do ano. Tratam-se de mega reservatórios que capturam água da chuva e dos solos durante o inverno, armazenando milhões de metros cúbicos de água doce, com o fim de manter no verão e durante épocas de seca, cada vez mais longas, um modelo agrícola industrial, intensivo e extrativista. Estas bacias são uma pilhagem de recursos naturais e de bens comuns em contexto de seca severa, causada e agravada pela crise climática. É mais uma manifestação da guerra declarada por governos e empresas contra a sociedade e o planeta.
Estas bacias garantem a distribuição desigual e injusta de água, exacerbam o domínio de grandes empresas sobre a produção e distribuição de alimentos, asseguram a precariedade laboral, e ameaçam o acesso a água potável, tudo enquanto vivemos em caos climático: são uma arma que eles usam contra as pessoas e a terra. Os tratados de livre comércio, os megaprojetos de infraestruturas e agronegócios transformam a natureza numa mercadoria, dando prioridade ao lucro em detrimento da vida.
Desta forma, os agricultores locais opõe-se firmemente a estes projectos, tendo-se estabelecido uma aliança entre o movimento pela justiça climática, os agricultores e o movimento ecologista, com o fim de desarmar estas infraestruturas de destruição em massa. Sabemos que o combate à seca não se faz com mega-projetos agrícolas destes, mas sim com a conservação de água e com a escolha de culturas agrícolas que façam sentido para a produção alimentar e condições locais. Não queremos que esta situação se normalize e se reproduza noutros locais. Em Portugal, sabemos que em poucos anos, a água no Algarve não vai ser suficiente para abastecer a população da região. A solução é não consentir e entrar em resistência. A solução é criar um movimento pela vida, pela proteção das pessoas e do planeta.








O Acampamento e as Ações
Chegámos à Vila da Água, no dia 17 ao final do dia, depois de vários avisos de companheiras de que a polícia francesa estava a proceder a revistas e a identificações desde Niort, cidade a 30km de Melle. Várias centenas de pessoas foram identificadas antes sequer de chegarem, e várias dezenas de máscaras cirúrgicas, óculos de proteção e soro fisiológico foram retirados às pessoas sem qualquer justificação. A repressão policial ir-se-ia manter durante toda a semana, com helicópteros em sobrevoo constante em toda a zona da Vila da Água, capturando imagens e interrompendo a quietude dos campos da região de Poitou.
Vários debates em mesa-redonda e workshops foram acontecendo ao longo dos dias que antecederam os de manifestação: o tema principal foram as lutas pela água, a soberania alimentar e as revoltas camponesas e de agricultores por todo o mundo, assim como as diferentes formas de lidar com a repressão enfrentada. Houve um foco na luta internacionalista, com solidariedade aos movimentos que apesar da repressão, continuam a resistir. Sabemos que a repressão às mobilizações populares em defesa dos bens comuns acontece de forma semelhante em diversas partes do mundo (por exemplo, o uso da água como arma de guerra em Rojava e na Palestina).
No dia 19, fizemos parte das cerca de três mil pessoas que caminharam em direção aos parques de estacionamento localizados a 30 minutos da Vila da Água para daí nos deslocarmos para Vienne, para a floresta de Saint-Sauvant, local que o governo planea destruir para colocar uma nova mega-bacia. Antes sequer de chegarmos aos carros, fomos bloqueadas pela polícia montada em cavalos e carrinhas blindadas, e atingidas massivamente com granadas de gás lacrimogéneo em campos secos e abertos: “A manifestação está proibida”, diz um megafone policial. A maioria, cerca de 6 mil pessoas, incluindo a maior parte do grupo do Climáximo, conseguiu chegar a Saint-Sauvant, onde a manifestação para impedir o início de qualquer construção de bacias – especialmente a anunciada para setembro de 2024 – caminhou em direção à empresa Cérience, subsidiária da Terrena, uma das principais promotoras destes projetos em Poitou. Aí, a Gendarmerie (a equivalente francesa da GNR) de novo lançou granadas de gás lacrimogéneo à multidão, o que provocou um incêndio nos campos secos de trigo, impedindo o avançar do protesto. Para nós ficou claro ali, depois de instigar um incêndio, sem chamar bombeiros para o apagar, nem proteger as pessoas, que a nossa vida não tinha importância para eles, face ao que estavam a defender: uma empresa privada que está a roubar a água às pessoas.
Ao mesmo tempo, cerca de 600 pessoas foram de bicicleta junto de duas mega bacias pertencentes ao grupo Pampr’oeuf, que monopoliza a água da zona há 16 anos; aqui o desarmamento de uma das bacias foi feito com lentilhas d’água lançadas pelos manifestantes: estas lentilhas desenvolvem-se em água estagnada e bloqueiam depois bombas e tubulações, impedindo o seu funcionamento.


















Na manhã do dia seguinte, 20 de julho, dirigimo-nos a La Rochelle, cidade com o segundo maior porto exportador de cereais da França.
O porto de La Pallice foi bloqueado às 6h da manhã por terra (uma fila de tratores) e por água (caiaques e barcos insufláveis). 200 manifestantes juntaram-se e ocuparam o terminal agroindustrial do porto, tendo sido depois retirados com o uso extensivo de gás lacrimogéneo sobre os agricultores nos seus tratores. Enquanto isto, milhares de manifestantes reuniam-se no centro da cidade, no Parque Charruyer.
A chegada até La Rochelle novamente não foi fácil: várias estradas e transportes públicos bloqueados, buscas a carros sem motivo algum, e novamente revistas individuais e materiais como máscaras e soro fisiológico apreendidos pela polícia. Contudo, cerca de oito mil pessoas se iam juntando naquele parque, em La Rochelle. O objetivo era marchar até ao porto, denunciando os atores do setor dos cereais, associado à construção dos mega reservatórios e à apropriação de água pela agroindústria: bloquear as mega bacias na sua fonte. Isto é, o porto como o último elo na cadeia do sistema dos megaprojetos de retenção de água, um sistema que prioriza a especulação financeira e o mercado livre sobre a preservação dos bens comuns e o acesso público a alimentos de qualidade, colocando em risco a soberania alimentar. A proliferação dos mega reservatórios e a expansão do porto são encaradas como duas faces da mesma moeda do negócio de empresas como Sica Atlantique ou Oceália, e outras intervenientes portuárias como a Total, Lafarge ou Bolloré, sendo que metade do seu fluxo abastece a agroindústria e a outra metade a indústria petrolífera e a de construção. La Pallice é um catalisador do capitalismo fóssil que nos está a levar diretamente para o colapso climático.
Sabendo o que este porto significa, foi assim que cerca de dez mil manifestantes partiram então até La Pallice, incluindo 200 internacionais. Foram várias as tensões com a polícia, que tentou bloquear a manifestação sistematicamente de avançar, com canhões de água, gás lacrimogéneo e bastonadas. Esta, porém, avançou. “Tout le monde déteste La Pallice” e “siamo tutti antibassini” foram gritadas inúmeras vezes, por manifestantes de várias idades e capacidades físicas. Pelo caminho, painéis de publicidade em paragens de autocarros foram destruídos, e danos numa seguradora e num supermercado foram feitos. Sete pessoas foram detidas e algumas tiveram de receber apoio médico.
A intimidação policial e as proibições não nos impediram de nos manifestarmos em massa em oposição a megaprojetos de retenção de água. Iremos continuar a resistir tal como a denunciar a violência brutal feita contra pessoas que defendem a vida e a água. Com o escalar do nível de repressão, e a ampliação desta além-fronteiras (incluindo onde o movimento é denunciado de “ecoterrorista”), não podemos normalizar estes atos de repressão institucionais, seja de polícias ou tribunais, contra pessoas.




















Seca em Portugal – Junta-te à luta pela vida
Em Portugal a escassez de água é um assunto permente e assustador. É preciso atuar já, quer para parar imediatamente todos os consumos desnecessários e de luxo, como os campos de golfe e hóteis e turismo de luxo, como travar imediatamente a crise climática através da implementação do plano de desarmamento.
Sabemos que as políticas agrárias e industriais atuais estão a levar-nos ao colapso climático e dos ecossistemas. A única forma de parar esta loucura é lutar pela vida é desativar todas as armas que nos estão a matar.
Junta-te à resistência climática hoje, pela água, pela vida.