Declaração de Emergência Climática 2026/2027 - Construir um movimento mais perto de ganhar
O Verão é o de 2026, e antecipa-se infernal. A crise climática está pior do que as previsões indicavam e a barbárie, já presente em vários locais do mundo, alastra-se rapidamente. Tempestades e incêndios; um futuro cada vez mais aterrador para todas as gerações atuais e a possibilidade real e cada vez maior de inexistência de futuro para os jovens; preços de bens essenciais proibitivos; o escalamento de guerras, genocídios, e de um imperialismo fóssil sem máscaras, mais agressivo, e em busca de mais combustíveis fósseis; um calor sufocante em casa, escolas e locais de trabalho. A cada dia aumenta o número de pessoas atingidas pelos ataques da guerra declarada por governos e empresas à sociedade e ao planeta através da crise climática.
Os incêndios e tempestades são atualmente relatados pelos media e poder político como cenários de guerra mas em termos perversos. Noticiou-se a Kristin como o resultado da crise climática, mas nunca se falou dos seus culpados. Invisibilizou-se, quando se descreveu o “cenário de guerra”, a agência daqueles que a provocaram através da exploração de combustíveis fósseis e da perpetuação de infraestruturas e de um sistema dependente dos combustíveis fósseis, altamente emissor. Os
dirigentes políticos e económicos tentam assim normalizar os eventos climáticos extremos que há muito sabiam iriam decorrer, como uma consequência das suas atividades, e assim prosseguir com as mesmas. É preciso portanto repetir: a crise climática não pode ser normalizada, é um ato de violência extrema com culpados – os governos e as grandes empresas que através de ações coordenadas e premeditadas nos trouxeram até aqui – que nos impõem que o caos climático é a única opção. Sabemos que os culpados não vão parar sozinhos, mas sabemos também que é possível travá-los e acabar com esta guerra, evitando a destruição de tudo o que amamos. Está com as pessoas comuns esta responsabilidade.
Do nosso lado, os nossos últimos 9 meses foram marcados por experimentações, momentos de entusiasmo e uma constante frustração. Fizemos tudo o que conseguíamos e o que conseguimos foi pouco. Dado o escalamento da crise climática, a ausência de corte de emissões, e a falta de uma base e saltos qualitativos no poder e capacidade do movimento, hoje deparamos-nos com a realidade: o movimento não só não está mais perto de ganhar, como pode estar mais longe.
A viragem à direita e a audácia aumentada da extrema-direita também assustaram e contribuíram para um atordoamento dos movimentos. Num momento atual e global de desorganização social, sabemos que temos de descobrir respostas inovadoras, realistas e mais ambiciosas do que nunca, ao mesmo tempo que tentamos lidar com a precarização e repressão no nosso dia-a-dia. É preciso transformar qualitativamente o contexto atual de luta e o poder do movimento para fazer face a uma realidade em escalamento. Seríamos desonestas se disséssemos que estamos certas de como o fazer. Ainda assim, cabe-nos experimentar e testar caminhos promissores, ao mesmo tempo que queremos construir uma base do movimento, dando continuidade ao trabalho feito no último ano.
Assim, nos próximos meses vamos:
Visibilizar a guerra
A guerra declarada por governos e empresas à sociedade e ao planeta através da crise climática expressa-se de forma cada vez mais violenta e constante. Vamos aproveitar a publicação do livro Quebrar em Caso de Emergência Climática para abrir conversas honestas sobre esta guerra. Queremos levar este livro e a sua proposta a mais pessoas e mais locais, desafiando a sociedade a tomar responsabilidade e agir em conformidade com o estado em que estamos.
Construir um movimento das linhas da frente deste guerra
Ao mesmo tempo que sabemos que todas as pessoas comuns já estão hoje, a diferentes níveis, a ser atingidas pela crise climática, reconhecemos várias linhas da frente nesta guerra. Neste âmbito, vamos continuar a apoiar a luta e organização de duas das principais linhas da frente que consideramos terem uma grande capacidade de exponenciar mais luta e solidariedade na sociedade: por um lado, estudantes e jovens em Lisboa pelo fim aos combustíveis fósseis; e, por outro, as
comunidades nos territórios atingidos por incêndios. Vamos por isso dar seguimento ao esforços de organização e solidariedade às populações em territórios fustigados por incêndios, assim como ao apoio ao movimento estudantil na organização de jovens e estudantes pelo fim ao fóssil.
Integrando o Movimento Internacional dos Atingidos, queremos construir um movimento de pessoas atingidas pela crise climática que se organizem para agir em conjunto, capaz de mobilizar mais pessoas a lutarem e agirem em solidariedade.
Durante este ano vamos construir um movimento de pessoas atingidas pelos incêndios em Portugal. Vamos oferecer capacidade para empoderar as populações fustigadas, facilitar a transferência de conhecimentos, e apoiar a articulação entre
lutas locais e reivindicações que delas surjam, permitindo coesão narrativa e coerência nacional que impulsionem o movimento.
Vamos igualmente prepararmos-nos para, em momentos em que os outros ataques via crise climática são extremamente visíveis, ser possível mobilizar a sociedade em solidariedade, defesa popular de territórios e contra os culpados.
De forma constante vamos colaborar nos momentos de mobilização social liderada por estudantes, na luta pela existência de um futuro, visibilizando como “caos climático é guerra e guerra é caos climático” e apoiando a resistência e enfrentamento com imperialismo fóssil.
Honestas, atentas e ágeis face à realidade volátil desta guerra
Ter pouco tempo para desmantelar esta guerra significa que temos de usar o tempo que temos da forma mais inteligente possível. Tal implica largar o conforto de “fazer algo”, de nos “enchermos de tarefas” ou “fazermos o que sabemos fazer”. Ao invés é preciso mantermo-nos focadas em fazer o que é preciso e construir planos que realmente nos permitam ganhar. Assim, tomamos como desafio e compromisso para os próximos 6 meses sermos ágeis e flexíveis face realidade. Vamos estar
atentas às oportunidades de construção de movimento social e presentes com capacidade aquando de eventos sociais, políticos e climáticos de relevo. E vamos alocar capacidade a explorar várioscaminhos e oportunidades de construção de poder para conseguirmos realmente parar a guerra. Partilharemos o que descobrirmos.
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Continuamos a encarar com seriedade e compromisso a necessidade de construir um movimento internacional. Assim, permaneceremos atentas a novas experiências e aprendizagens de outros coletivos e movimentos, assim como a à procura e abertas a propostas de articulação e espaços de coordenação que surjam como tentativas de avançar com a construção de um movimento internacional mais capaz e ancorado na urgência e tarefa de desmantelar este sistema de guerra.
A realidade assusta-nos. Assistimos a milhares de pessoas em todo o mundo a serem atingidas pela crise climática de forma cada vez mais brutal. Encontramos força e o dever de continuar a lutar na sua resistência, nos corpos colocados à frente de infraestruturas e fontes de ataques, nos esforços de solidariedade internacional e entreajuda nas comunidades, e nos imensos esforços de construção de poder popular. Não temos alternativa senão seguir, erguidas, juntas, em luta, com ambição e honestidade.