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Estivemos no Reino Unido a apoiar o levantamento internacional “Oil Kills”

1. A Caminho do Reino Unido

 
Viajámos ao Reino Unido na semana em que, por toda a Europa e na América do Norte, iniciaram-se ações em aeroportos, exigindo o fim da queima de combustíveis fósseis até 2030. Saímos de manhã cedo de Lisboa, iniciando a viagem para Londres, à distância de 26 horas e meia de autocarro e comboio, com paragem numa Paris militarizada e semi-parada que se preparava para os Jogos Olímpicos. Fixámo-nos numa área pacata do Este de Londres, numa casa cedida por um companheiro, com paredes cobertas de cima a baixo com placas de xilogravura, com desenhos tão familiares como as caveiras do Extinction Rebellion ou as latas de sopa do Just Stop Oil. Durante essa semana, contactámos com diversas camaradas do movimento por justiça climática britânico, aprendemos mais sobre o funcionamento e estratégias dos principais grupos, aprofundando as ligações com os mesmos e apoiámos as ações internacionais.
 
 

2. As Ações

 
Os governos e as empresas de combustíveis fósseis estão a travar uma guerra contra a humanidade. Se continuarem a extrair e a queimar gás, petróleo e carvão, matarão milhões de pessoas inocentes e destruirão nações inteiras. Temos de os impedir. Recusamo-nos a morrer pelos combustíveis fósseis e recusamo-nos a ficar parados enquanto milhões são assassinados.
 
Foi desta forma que os grupos que iniciaram uma onda de ações sob o lema de “Oil Kills” contextualizaram a necessidade de agir perante a guerra que está a ser levada a cabo por governos e empresas contra a humanidade. A 24 de Julho, começou um levantamento internacional com ações em aeroportos: o início deu-se às 3 da manhã, quando um grupo de apoiantes de Letzte Generation cortou a vedação do aeroporto de Colónia-Bona, na Alemanhã, e se colou ao alcatrão nos acessos de circulação do aeroporto, parando o tráfego aéreo durante 4 horas. 
 
Seguiram-se ações em catadupa: durante três semanas, 21 grupos de 12 países [1] causaram disrupção em 19 aeroportos, realizando ainda alguns protestos públicos abertos a toda a gente, em apoio ao levantamento internacional [2]. O foco foi a exigência aos Governos da criação de um tratado vinculativo para o fim da extração e queima de gás, petróleo e carvão até 2030, assim como o apoio financeiro aos países mais pobres para a realização de uma rápida transição justa. Segundo estes grupos, tal poderia ser alcançado através da adesão a um Tratado de Não-Proliferação de Combustíveis Fósseis e da procura de um mandato negocial para estabelecer esse tratado.
 
As ações começaram na mesma semana em que o recorde de temperatura global foi batido põe dois dias consecutivos e num ano que poderá vir a confirmar-se como o mais quente desde que há registo. O impacto do calor intenso fez-se sentir de forma mortífera, principalmente em países do Sul Global: 125 pessoas foram mortas pelo calor extremo este ano no Iraque, 427 pessoas morreram no Paquistão, 400 pessoas na Índia e 1.300 peregrinos morreram durante o Hajj. A decisão de governos e empresas de continuarem a queimar combustíveis fósseis é feita de forma coordenada e com consciência plena da condenação de milhares de pessoas à morte pelo mundo inteiro.
 
Os aeroportos foram escolhidos como alvos das ações devido ao papel central destas infraestruturas no capitalismo fóssil global e por serem um local que permite o confronto direto com a sociedade, perturbando a ilusão de normalidade existente e apelando à participação de toda a gente na resistência. A aviação é um dos expoentes máximos da injustiça climática, com um crescimento acelerado nos últimos anos e com o setor a projetar duplicar o número de passageiros até 2038. Não existem soluções tecnológicas viáveis para cortar as emissões nesse setor, pelo que a única forma de o fazer é reduzir drasticamente os voos.
 
Para além das ações no asfalto, um vasto leque de táticas foi utilizado: pintura da fachada, lobby e equipamentos em aeroportos, bloqueio das portas de embarque no interior ou dos acessos externos, e até a perturbação da saída de um voo causada por um grupo que se levantou e discursou dentro de um avião antes de este começar a andar. Os grupos afirmam que “isto é só o começo” e que continuarão a intensificar as suas ações enquanto a destruição não parar.
 
No final da semana participámos no protesto They Fly We Die, com o Fossil Free London, contra a expansão do London City Airport, um aeroporto que serve acima de tudo aos super-ricos, tendo sido contagiadas pela energia e palavras de ordem criativas. Gritámos em plenos pulmões pelo fim dos projetos de morte, seja em Londres, seja em qualquer outro lugar do Norte Global.

3. A resposta do sistema

 
Essa onda de ações aconteceu uma semana após a atribuição das sentenças de prisão mais longas de sempre aplicadas a defensores do clima na Europa, com a condenação de 5 apoiantes do Just Stop Oil, incluindo o influente Roger Hallam, a 4-5 anos de prisão efetiva por falarem numa sessão de Zoom. A par disto, nas semanas que precederam a ação, dezenas de buscas foram realizadas nas casas de apoiantes do Just Stop Oil, justificadas pela suspeita de conspiração para perturbar uma infraestrutura crítica. Dezenas de pessoas foram detidas, incluindo numa “Soup Night”, um evento público de partilha e conversa. Para além disso, no Reino Unido, aquelas que tomam ação para dizer a verdade e confrontar líderes políticos e empresas assassinas têm sido alvo indiscriminado de medidas restritivas como prisão preventiva na sequência de ações não-violentas, aplicada até a pessoas que não possuiam qualquer historial de ações passadas. Umas semanas antes, na Alemanha, o grupo Letzte Generation foi acusado de organização criminosa.
 
No Reino Unido, contactámos diretamente com algumas destas pessoas que, sabendo o que sabem sobre a crise climática e a destruição que está a ser causada pelo business as usual, têm a coragem de assumir as crescentes consequências legais de um sistema que reconhece a crescente oposição como uma verdadeira ameaça, e não se retraem de tomar ação. Estivemos no tribunal em solidariedade quando as duas apoiantes do Just Stop Oil, que lançaram sopa aos girassóis de Van Gogh, estiveram a ser julgadas (caso que acabou com a condenação de ambas); apoiámos as pessoas que foram levadas a tribunal após terem sido impedidas de fazer uma ação no aeroporto de Heathrow (que ficaram, na sua maioria em prisão preventiva); e acompanhámos quem aguardava junto a uma esquadra por companheiras detidas em casa de forma arbitrária no primeiro dia de ação.
 
Ao longo destas 3 semanas, pelo menos uma ação que estava planeada foi impedida de acontecer no Reino Unido. Isso atesta o nível de repressão e vigilância draconiana a que o movimento está sujeito neste país. Exemplo disso é a forma como a polícia britânica, numa concentração pacífica convocata abertamente em frente ao Ministério dos Transportes em oposição à expansão do London City Airport, registou fotograficamente as caras de todas as pessoas presentes na manifestação, uma prática recorrente em protestos no país.
 
 

4. Um passeio pelo parque

 
Entre reuniões, tribunais e protestos, tivemos tempo de passar por uma das “Soup Nights” do Just Stop Oil, evento que após ter sido alvo de detenções arbitrárias na semana anterior, teve lugar desta vez num parque. O foco era a escrita de cartas para os “Whole Truth Five”, as 5 pessoas que foram condenadas a 4-5 anos de prisão. Trocámos impressões e experiências dos movimentos no Reino Unido e em Portugal e ficámos inspiradas para inovar as nossas formas de mobilização em Lisboa e experimentar novos modelos de interação e construção de afinidade com a comunidade.
 
 

5. Uma janela para o futuro

 
De volta a casa, desta vez passando o Canal da Mancha por mar num enorme ferry, o sentimento maior que trouxemos foi de inspiração por contactar com tantas pessoas que, como nós, reconhecem o que está em jogo no momento histórico que enfrentamos e que agem à altura deste desafio, com coragem, força, toma de riscos e criatividade. Sabendo o que sabes, o que vais fazer? Sabendo o que sabemos, não podemos aceitar a destruição em massa levada a cabo por ricos e poderosos em nome da manutenção dos seus lucros e luxos. Sabemos que aceitar isto significa aceitar a morte e a crescente miséria de milhões de pessoas por todo o mundo, em particular das pessoas mais pobres e que pouco ou nada contribuiram para o flagelo em curso. Não podemos aceitar tal coisa.
 
Dias depois de termos estado no Reino Unido, episódios de violência rebentaram em várias cidades, levados a cabo por grupos de extrema direita contra a população muçulmana, negra e migrante. Sabemos que isto é o resultado de um sistema que serve os interesses de uns poucos e cujo propósito não é nem nunca foi garantir o bem-estar da maioria. É certo que, com a intensificação da destruição climática, essa violência só vai crescer. E sabemos que temos que ser nós, as pessoas comuns de todo o mundo, a construir um movimento capaz de travar este colapso climático e social e de criar um mundo diferente, reconstruindo as estruturas, redes e comunidades afetadas pela destruição em curso, de uma forma livre de opressões e explorações e centrada no bem-estar de todas as pessoas.
 
Essa viagem permitiu-nos espreitar por uma janela para o futuro. Um futuro que assusta e nos deixa receosas com todo o potencial de violência e repressão que está já a cair sobre o movimento num país que se apresenta como um baluarte das democracias ocidentais, mas que neste momento tem 26 presos políticos. Esta é a resposta de um sistema assassino que não olha a meios para garantir a sua manutenção. E sabemos que não é um caso isolado, abrindo precedentes para os executores da guerra noutros países se defenderem contra quem se atreve a desafiá-los. 
 
Mas neste futuro também vemos solidariedade, comunidade, resistência e coragem inabaláveis de quem sabe que aquilo que enfrentamos, se não agirmos, é muito mais assustador do que qualquer repressão que possam lançar contra nós. Só um movimento forte e global de resistência climática, com uma perspetiva anti-sistémica e que reconheça a urgência da crise climática e a necessidade de tomarmos novos riscos e agirmos lado a lado, poderá travar o colapso social e climático antes que seja demasiado tarde. A tarefa que temos pela frente é avassaladora, mas sabemos que é a única hipótese que temos de travar a guerra em curso contra todas nós. E sabemos que estamos juntas e que a cada elo criado na resistência internacional a nossa força aumenta e o nosso sonho comum fica mais próximo de desabrochar.
[1] Incluindo Just Stop Oil e Fossil Free London (Reino Unido); Letzte Generation (Alemanha); Letzte Generation Österreich (Áustria); Last Generation Canada; Folk Mot Fossilmakta e Scientist Rebellion Norway (Noruega); Extinction Rebellion Finland; Extinction Rebellion e Scientist Rebellion Sweden (Suécia); Extinction Rebellion Netherlands (Países Baixos); Futuro Vegetal (Espanha); Drop Fossil Subsidies, Act Now – Liberate e XR Geneve (Suiça); Ostatnie Pokolenie (Polónia), Doe Deurne Dicht e Extinction Rebellion Antwerp (Bélgica); Scientist Rebellion Turtle Island, Extinction Rebellion Boston (EUA).
 
[2] Números em atualização.

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