Skip links

Avaliação de 2 anos de ação face ao Estado de Guerra em que vivemos

Há 2 anos viste-nos a bloquear a segunda circular. Fizemo-lo porque decidimos ser radicalmente honestas connosco e com todas as pessoas: a crise climática é um ato premeditado e coordenado dos governos e empresas contra as pessoas e todas nós temos de deixar de consentir com isso. Desde aí fizemos ações nunca antes vistas em Portugal. Fizemos centenas de debates, conversas e apresentações. Lançámos o Plano de Desarmamento e o Plano de Paz. Organizámos 2 ações de massas. Organizámos um boicote à COP e participámos em dezenas de espaços e encontros internacionais e nacionais. Hoje queremos contar-te o que aprendemos depois destes 2 anos, o que celebramos e onde falhámos, numa conversa vulnerável e honesta contigo.

Talvez a nossa maior celebração é o aumento de compromisso, honestidade e coragem das centenas de pessoas que deixaram de consentir e agiram nos últimos 2 anos para quebrar a normalidade e parar os ataques. Muitas de nós tomamos riscos que seriam impensáveis poucos meses antes, principalmente as novas pessoas que se foram juntando.

E esses riscos valeram a pena. No início, em 2023, era quase binário: nos dias de ação, havia notícias sobre o clima; nos dias sem ação, não havia notícias sobre a crise climática. As conversas nos cafés e em casa também mudavam a “sua normalidade” nas semanas em que fazíamos ações. É verdade que muitas das conversas eram mais focadas sobre as táticas utilizadas, do que sobre o que estávamos a dizer e defender. É também verdade que muitas pessoas que estavam neutras deixaram de estar e assistimos a um aumento exponencial dos simpatizantes com a causa e até com o Climáximo. Com a nossa insistência e determinação conseguimos um impacto mais profundo: conseguimos forçar a conversa sobre crise climática na altura das legislativas 2024; a cobertura dos incêndios florestais do verão de 2024 foi drasticamente diferente e muito mais politizada do que a de 2017; e a cobertura das inundações em Valência e dos incêndios florestais em Los Angeles foi muito melhor do que todas as anteriores.

Não nos iludimos, sabemos que apesar destas pequenas vitórias, não conseguimos criar um impacto permanente no discurso sobre a crise climática. Com a diminuição de ações em 2025, também houve uma queda da cobertura sobre crise climática nos media e nas conversas entre familiares e amigos. A sociedade não deixou de normalizar os atos violentos de empresas e governos. O grande exemplo disso são os incêndios e ondas de calor deste verão: raramente se falou sobre a crise climática como causa e exacerbadora, muito menos sobre medidas de mitigação. A sociedade não parou de normalizar a crise climática.

Há 2 razões que nos foram apontadas diversas vezes como erros e que danificavam a luta por justiça climática, mas que a realidade não nos deu provas de tal: I) que estávamos a alienar as pessoas com as nossas táticas; ii) que estávamos a alienar as pessoas ao dizer que estávamos em estado de guerra.

É certo que os colunistas da classe média alta repetiram múltiplas vezes que «estas ações afastam as pessoas comuns». O que sabemos é que estas incomodam os patrocinadores financeiros dos meios de comunicação social em que eles trabalham. Ao longo destes dois anos recebemos apoio de milhares de pessoas que mesmo não se sentindo confortáveis com as táticas que utilizámos, perceberam o porquê de o fazermos. É verdade também que ao forçarmos as pessoas neutras a tomarem posição, levámos à ativação da oposição, logo mais pessoas expressaram ódio – exacerbado pelo crescimento geral da extrema direita. Por outro lado, não houve qualquer evidência de que as pessoas mudaram de opinião negativamente em relação à crise climática, ao movimento pela justiça climática ou à posição política específica do Climáximo.

Em relação à apresentação da nossa análise da crise climática como uma guerra declarada contra as nossas vidas, surpreendeu-nos que as nossas afirmações fortes, em comunicados de imprensa, sobre o estado de guerra e os violentos ataques em curso, terem quase sempre saído nos media, e com o facto da sociedade e opinião pública não ter achado tais afirmações novidades ou chocantes – resta saber se foi por não terem ouvido ou por concordarem que os governos e empresas estão ativamente a matar-nos e a levar a um colapso social. De forma assustadora a sociedade reagiu como a sociedade na Alemanha e diversos países europeus estavam a reagir em 1937.

A nível de impacto a curto prazo, concluímos que explicar a crise climática como guerra leva a mudanças de perceção e opinião quando utilizada em conversas presenciais, como debates e conversas diretas, tornando-se quase vazio quando repetido em entrevistas nos media. Falhámos em encontrar formas de comunicar em grande escala e de usar linguagem acessível para dialogar e mobilizar a sociedade face ao nível dos ataques atuais e ao facto da responsabilidade de travar o colapso estar nas pessoas comuns, visto serem os decisores políticos e económicos a atacar todas nós conscientemente.

É de notar, que um fator com que não contávamos e teve um grande impacto para a transmissão íntegra da nossa mensagem, foi o facto de termos sido afastadas da grande media a nível de entrevistas e opinião (em contraste com experiências noutras partes da Europa). Não aparecemos nenhuma vez na televisão no último ano – ao contrário de anos anteriores em que fomos várias vezes a estúdio para comentar sobre crise climática e eventos relacionados como incêndios ou a COP –, deixaram de nos convidar para entrevistas nos estúdios e os nossos artigos de opinião estão a ser rejeitados sistematicamente. Mesmo assim, o nosso apoio cresceu exponencialmente.

*

Esta é outra grande celebração que queremos partilhar contigo. Nos últimos 2 anos conseguimos um aumento de visibilidade e de apoio ativo incomparável face aos 8 anos anteriores. O apoio ativo e visível ao movimento pela justiça climática aumentou. O apoio ativo e visível ao Climáximo também aumentou. Registámos muitos indicadores (seguidores nas redes sociais e no site, novos formulários e número de participantes em aprestações publicas, tópicos populares nas redes sociais, pessoas a lançar declarações de apoio por iniciativa própria, reação imediata de apoio de transeuntes durante as ações, etc.) nesse sentido. Novos contactos de artistas, cientistas, sindicatos, associações de bairro e associações profissionais, numa proporção que não vimos no Climáximo, nem mesmo durante 2019.

Contudo, o apoio exponencial não se traduziu em participação em ações ou adesão ao coletivo. Colocamos como hipótese o salto para entrar e agir ser demasiado arriscado para as pessoas, dado o tipo de ações que estávamos a fazer. Por isso, no último ano, apostámos em ações de massa de fácil participação e baixo risco, mobilizando a sociedade para agirmos lado a lado: em Novembro conseguimos a ação de massas com mais pessoas nos últimos 5 anos do Climáximo, Parar Enquanto Podemos, não sendo contudo uma ação com milhares de pessoas; 5 meses depois, com a ação Parar os Aviões, tivemos a menor participação de sempre. Não conseguimos efetivamente que o último ano tivesse sido um ponto de viragem na luta pelas nossas vidas. A prática excluiu assim a hipótese que tínhamos. A verdade é que o peso do risco de uma ação é medido de acordo com o risco do que acontece se não agires. Falhámos em ancorar as pessoas no risco de não agir e/ou do possível ganho se agir.

Se recordarmos a Grande Estratégia, e olharmos para alguns dos públicos nos quais queríamos provocar uma mudança, esta é a informação que temos atualmente:

  • As pessoas Neutras: a quebra de normalidade levou a diminuição de pessoas neutras sobre a crise climática, levando a um aumento nunca antes visto de simpatizantes. Uma parte da oposição passiva ficou ativada.

  • Simpatizantes: há uma vontade maior de falar, ajudar e colaborar. Contudo, há também uma maior timidez e afastamento público ao climáximo, tal como medo de participar publicamente nas nossas ações. As razões passam pelas pessoas não quererem ser vistas “como demasiado radicais”, recearem a repressão dentro dos locais de trabalho e recearem a repressão policial nas ações. Há indícios de que as simpatizantes ficaram mais alarmadas e com consciência do problema mas continuam a achar que se trata de um problema que afetará “outras” no “futuro”. Não consideram ser a sua responsabilidade de agir, vendo-se muitas das vezes como cúmplices/parte do problema. Acham que fazer algo é para as “outras” que são “as corajosas”.

    Nós falhámos em quebrar a dicotomia entre ativistas e pessoas comuns. As ações de bloqueios de estrada e a ação Parar os Aviões foram por vezes interpretadas como colocar a culpa da crise climática nas pessoas que já andaram alguma vez de avião ou que estão a andar de carro, reforçando a sensação de culpa individual ao invés de responsável por agir. Apesar dos esforços ativos para contrariar este leitura, foi bastante visível esta leitura, em particular em relação à aviação.

  • Pessoas Ativas em lutas sociais e/ou climáticas: houve uma normalização de novas formas de agir, e há animo para as aplicar; há um reconhecimento geral da disciplina, integridade e capacidade do Climáximo e da luta; contudo, não quebrámos, através do plano de desarmamento e as ações para parar a destruição, o desespero e falta de visão: continuam a achar que é impossível travar o colapso social e climático e/ou não consideram serem responsáveis por tal; aliado a isto, a repressão legal levou à desmobilização de muitas destas pessoas.

Para te contarmos o estados das outras 2 categorias sociais em foco na Grande Estratégia, temos primeiro de te contar um pouco melhor o que fizemos e o que se passou a nível nacional.

*

Celebramos termos contribuído largamente para a normalização da desobediência civil em Portugal e por hoje o movimento ser mais resiliente e capaz, tendo diversos recursos para enfrentar a repressão.

No ecossistema mais vasto do movimento, esperávamos colmatar a lacuna de ambição. Esperávamos contribuir para uma reconfiguração dos movimentos sociais em Portugal, onde todos reconhecessem a emergência climática como o contexto em que vivemos, lutamos e traçamos estratégias. Não conseguimos fazê-lo, nem encontrámos organizações parceiras com quem colaborar, com exceção da Greve Climática Estudantil Lisboa. Não conseguimos construir alianças estratégicas que fossem além dos acordos táticos.

Desde 2022 que não faltámos a nenhum protesto em massa. A habitação, o antirracismo e a justiça social têm sido os principais motores das mobilizações em massa em Portugal (vale a pena mencionar também a marcha pelo centenário de Amílcar Cabral). Estamos presentes. Estamos disponíveis. Estamos empenhadas. Durante 2023 e 2024 marcámos e participámos em mais de 100 conversas com organizações e organizadoras em Portugal, sendo radicalmente honestas sobre estratégia e planos. Revimos o Plano de Desarmamento e Paz com base nas alterações propostas por várias organizações, por duas vezes. Em 2024 percebemos que estávamos a ficar amarguradas com outras organizadoras pela falta de resposta compatível com mudança sistémica nos prazos climáticos. Por isso adicionámos outra dimensão. Dirigimos-nos às organizações e movimentos com intenção, abertura e honestidade. Isto assumiu várias formas (reuniões informais, eventos conjuntos, discussões aprofundadas, ações conjuntas). Tal permitiu clarificarmos a nossa posição. Hoje somos percecionadas pela maioria das organizadoras como corajosas, sérias, com ambição e capacidade de análise e reflexão. Contudo, e apesar dos nossos esforços, falhámos em demonstrar a crise climática como um problema social. Falhámos em demonstrar que não é um tema, mas sim um prazo. Falhámos em criar o acordo que falta entre as organizadoras e em dar visibilidade ao plano de desarmamento e de paz como um plano capaz de oferecer uma resposta coesa aos ataques, em várias frentes, por parte dos governos e empresas contra as pessoas.

Hoje assistimos ao desmantelamento de todos os serviços básicos, com a crise da habitação, saúde e custo de vida. Assistimos às políticas bárbaras contra migrantes, às políticas misóginas e às políticas contra as condições de trabalho. Com a degradação geral do capitalismo e com o agravar da crise climática, o autoritarismo e a escassez estão a empurrar para a abertura de novos conflitos, quer a nível local, quer regional. Os grandes blocos acantonam-se e procuram o armamento como resposta de investimento industrial em grande escala. Na fuga para a frente, as elites tecnológicas lançaram os Grandes Modelos de Linguagem, chamaram-lhes Inteligência Artificial e tentam automatizar todas as áreas de atividade, ignorando o impacto social e a destruição ambiental que o aumento de capacidade de processamento implica. Se as lutas de todas e de cada uma, nestas frentes de ataque às pessoas, não tiverem ancoradas nos prazos climáticos, não só o autoritarismo e o ataque às condições básicas de vida se irá intensificar a uma escala nunca antes vista, como a barbárie será inevitável, assistindo já aos seus inícios com a ascensão do fascismo e o genocídio atroz na Palestina.

Por tudo isto, sabemos a importância de ter um movimento anti-capitalista em Portugal forte e ancorado em prazos climáticos. Esta é a nossa avaliação das mudanças das 2 restantes categorias apresentadas na Grande Estratégia destes 2 anos:

Organizações de clima: mostraram uma solidariedade nominal, sem nenhum debate interno substancial sobre o estado de guerra em que vivemos e sem nenhuma mudança substancial no seu próprio modus operandi. Esperávamos mais debates internos, reflexões mais profundas, talvez o surgimento de novos grupos. Também não houve um aumento visível destas contra a repressão policial e legal. Apesar do aparecimento de alguns grupos – como as Jornadas pela Democracia Energética, Ebulição, Alvorada pela Floresta, Alecrim e Encontros Locais Pela Justiça Climática – não se criou um acordo sobre travar a crise climática implicar atualmente desmantelar o sistema capitalista. Os resultados que obtivemos foram residuais. Em grande parte vêem-nos como “os rebeldes” a fazer o nosso papel, tendo elas um papel diferente. Falhámos em mostrar que os generais desta guerra não vão parar os ataques por vontade própria, sendo o papel de todas pará-los (mesmo que usando diferentes táticas e estratégias para tal).

Organizações de esquerda: para uma resposta adequada, separámos em partidos, sindicatos e organizações sociais:

  • Começando pelos partidos de esquerda, a sua resposta foi de medo, desistência ou apatia: nas eleições gerais em 2024 e em 2025, praticamente todos os partidos propuseram políticas que aumentariam as emissões (como um novo aeroporto) e nenhum partido apresentou planos para fechar a infraestrutura de combustíveis fósseis. Não só a esquerda parlamentar está muito fraca atualmente, como nenhum elemento apresenta uma resposta real e credivelmente anti-sistema à esquerda.

  • Ao termos desinvestido da campanha Empregos Para o Clima e focado no Plano de Desarmamento e Plano de Paz – que engloba todas as medidas da campanha -, diminuímos a nossa relação e contacto direto com sindicatos, o que não conseguimos recuperar por outras vias.

  • Passados poucos dias do lançamento da estratégia em 2023, aconteceu, a partir de 7 de Outubro, um escalamento brutal do genocídio ao povo palestiniano. Estes 2 anos foram assim marcados por uma ação conjunta de diferentes formas com o movimento pela Palestina livre. Este é dos movimentos mais fortes, estando em estado de emergência constante. Nos últimos meses perdeu capacidade de mobilizar massas e está muito desarticulado e sem uma visão estratégica, o que impossibilita qualquer acordo para além de tático. Estaremos atentas e disponíveis para formas de colaborar que não estejam desligadas da mudança sistémica necessária para sairmos deste inferno todas juntas. Ao mesmo tempo, acompanhámos o movimento antifascista, sendo este ágil, e com uma resposta rápida, mas sem planos. Em diversas ocasiões estivemos na linha de frente anti-fascista em Lisboa. Continuaremos presentes, sabendo que a única forma de parar o fascismo, é travando a crise climática. Neste 2 anos Vida Justa surge e consegue ocupar um papel central na esquerda, tendo uma base organizada e a capacidade de mobilizar à volta de anti-racismo, direito à habitação e transporte. Apesar do seu foco em mudanças incrementais, as referências a revolucionários passados, a presença consistente em linhas da frente, a novidade de atuação e de organização, indicam ser um espaço promissor. Assistimos também a diversas mobilizações pela defesa dos direitos de migrantes, lideradas pelas pessoas migrantes. Por fim, estamos entusiasmadas e expectantes na Habita e Stop Despejos por estarem em reflexão interna sobre a implicação prática de prazos para todas as lutas. Estamos conscientes que hoje há em Portugal várias organizadoras e organizações muito mais competentes e capazes em mobilizar e organizar a sociedade do que nós e estamos em pânico com a nossa falha em criar o acordo em relação a prazos com elas, e com a falta de planos concretos para sairmos do capitalismo antes de colapsarmos ecológica e socialmente.

*

Deixa-nos agora contar-te de forma um pouco mais resumida o que andámos a fazer estes 2 anos a nível internacional, visto que esta é uma luta global. Podermos dizer-te que celebramos as diferentes tentativas, com criatividade e flexibilidade, reconhecendo simultaneamente que não alcançaram um resultado satisfatório.

Bem, deixa-nos explicar um pouco melhor.

Por um lado, não conseguimos que nenhum grupo novo se formasse com base no estado de guerra ou que algum grupo atual declarasse estado de emergência climática interno. Também não conseguimos um acordo para uma ação conjunta contra as armas de guerra na primavera de 2025. Por outro, conseguimos que alguns grupos utilizassem parte do enquadramento de guerra em ações (exemplo: XR Espanha e as ações Oil Kills). Através da tentativa de ação internacional com a narrativa de guerra, abrimos conversas profundas e urgentes sobre teoria de mudança, levando a questionamento e mudanças internas. Estamos atentas e curiosas na reconfiguração da A22 e no novo espaço de articulação que estão a criar tal como às diversas ações de disrupção económica que fazem conexão entre as armas da indústria fóssil e as armas de guerra para Israel.

Da mesmo forma, apesar de não termos conseguido garantir um boicote permanente à COP, nem construir uma coordenação de rutura internacional, garantimos a Earth Social Conference com Boicote em Novembro de 2023. A alteração da escolha dos locais da COP, de países onde é impossível qualquer mobilização social, para países considerados progressistas e onde o governo tem um grande poder sobre os movimentos sociais, apresenta novos desafios. Hoje seguimos os Encontros Ecossocialistas em Belém e o Encontro anticapitalista pelo clima e pelo fim dos genocídios no Brasil, ambos em resposta à COP30 no Brasil. Estivemos igualmente presentes e disponíveis nos principais espaços de articulação internacional de justiça climática e em todos os espaços a nível europeus, sendo reconhecidas e respeitadas por diferentes organizações. Seguimos igualmente o movimento pela habitação a nível europeu, em particular a European Action Coalition for the right to housing and the city, fazendo parte da equipa organizadora do próximo encontro desta coligação, a convite da Habita e Stop Despejos.

Estamos assustadas com a falta de ambição e compromisso na maioria dos espaços internacionais, a falta geral de coordenação intra e inter movimentos a nível global e europeu, tal como com a crescente tendência de “adaptação ao colapso” no movimento europeu, abandonando a mitigação. Tomámos como responsabilidade nossa reanimar o movimento na Europa centrado em prazos climáticos.

Estamos curiosas e atentas à nova reconfiguração do movimento, às diversas revoltas a acontecerem pelo mundo e aos espaços internacionais não liderados por europeus. Destacamos o Global Campaign to Reclaim People’s Sovereignty, Dismantle Corporate Power and Stop Impunity, Fossil Fuel Non Proliferation Treaty, The Peoples Want e a People’s Plataform Europe.

*

Sendo honestas contigo, no topo de tudo isto, a verdade é que o cansaço pesou.

A repressão do estado em resposta à nossa honestidade, teve como impacto o roubo de milhares de horas, euros e energia à luta. Isto diminuiu a nossa agilidade. Não conseguimos adaptar-nos a umas eleições antecipadas em 2025 e de compreender os impactos de adesão às ações do crescimento da extrema direita. Neste último verão não tivemos a preparação necessária, a energia e a flexibilidade para garantir uma resposta rápida adequada às ondas de calor e aos incêndios devastadores.

Deixa-nos explicar-te um pouco o que aconteceu internamente nestes 2 anos.

Demos um salto na nossa capacidade de ação, comunicação e resiliência interna. O acordo interno sobre o estado de guerra foi crucial para conseguirmos manter o foco e coesão política e estratégica e aguentarmos o aumento de riscos e de repressão.

Por outro lado, contávamos ter novas organizadoras, depois destes 2 anos, o que não aconteceu. Na realidade, a meio de 2024 tínhamos menos pessoas do que no verão de 2023 e mais pessoas do que nunca estavam desempregadas ou a estudar (embora quase metade das funções de coordenação fossem ainda desempenhadas por pessoas que tinham emprego). Assim, no último ano colocámos medidas de emergência para quebrar barreiras de integração e garantirmos que nos mantínhamos um coletivo de pessoas trabalhadoras. Conseguimos neste momento sermos mais pessoas do que há 2 anos e a maioria das pessoas atualmente tem um full-time. Ainda estamos a aprender como, face à repressão e à união que as ações criaram entre as pessoas ativas em 2023 e 2024, conseguimos contrariar as tendências internas que colocam barreiras ao nosso crescimento.

Hoje enfrentamos 3 desafios:

  • a nível comunicativo, pela primeira vez o nome Climáximo e ativistas climáticos tem uma associação direta na cabeça de milhares de pessoas em Portugal;

  • a nível organizativo, a estratégia dos últimos 2 anos implicou estarmos compartimentadas em equipas, especializadas em tarefas, e com uma rigidez de abordagem. Perdemos assim os músculos da agilidade, capacidade argumentativa e organizativa, de gerir relações e de liderar espaços com culturas diferentes.

  • A nível de transformação e disciplina, demos todas um salto gigante no nosso compromisso e riscos que tomamos individual e coletivamente, estando disponíveis para ir presas. Por outro lado, o foco em ações desfocou-nos de “fazer o que é necessário”, ficando visível o desleixo com prazos tal como não colocarmos a energia necessária em crescimento da capacidade organizativa pessoal, essencial para fazer crescer o movimento. Tivemos também ações onde falhámos na responsabilização interna e externa, estando ainda a reparar e a mitigar.

Seguimos com honestidade, disciplina e de mãos dadas, sabendo que temos de construir o movimento capaz de mudar tudo nos próximos anos.

*

Partimos da hipótese de que, se mostrássemos determinação e integridade, as pessoas em Portugal, que em grande maioria estão preocupadas com as alterações climáticas e querem melhores decisões políticas, acabariam por se juntar a nós. A um nível social mais amplo, temos de reconhecer o nosso profundo fracasso: não existe consenso social sobre o estado de emergência climática em que nos encontramos e sobre a responsabilidade de todas nós em parar os ataques. Recusamos o conformismo de culpar as pessoas (ou outros atores do movimento). Também nos recusamos a aceitar viver num colapso climático. Isto significa que temos de conseguir mostrar como os ataques estão a acontecer em Portugal; ter uma diversidade de pessoas organizadas a agir e tomar a responsabilidade de parar os ataques; e mostrar que não só é possível um mundo sem combustíveis fósseis como que é bem melhor do que o inferno à nossa frente. a nossa nova Declaração de Estado de Emergência Climática em 2025 para perceberes os nossos próximos passos.

Leave a comment